12.08.2007
100 anos de Miguel Torga

12 de Agosto de 1953
"Já me me lembrei de roubar numa destas cabines do balneário uma ampulheta que funciona mal, e guiar-me pelos seus caprichos. De vez em quando a areia pára de correr, e o tempo pára também, à espera que ela se resolva a medi-lo. O resultado é baralharem-se de tal modo a inércia e o movimento, o frémito e a estagnação, a vida e a morte, que se esbatem no pensamento os limites precisos de qualquer duração, sem que o espírito deixe de a sentir. O que é verdadeiramente ideal para o caso concreto de um poeta, que deve envelhecer aos ziguezagues, umas vezes de trás para diante, outras vezes de diante para trás, de maneira que possa atar sempre a ponta esperançosa do princípio do novelo à ponta desesperada do fim."
12 de Agosto de 1954
Radiograma aos que voam
"Homens aéreos, em levitação,
Espíritos de hoje, meus irmãos ausentes:
Olhai o chão, as fontes e as sementes,
E estes versos de assombro desfolhado.
Dái-me a certeza de que sois herdeiros
Dos terrosos e humildes pioneiros
Das asceses sem asas do passado."
12 de Agosto de 1955
"Vou fazer anos à Calcedónia, ao Cabril ou à Borrajeira - aos picos mais altos da Montanha. Que ao menos o espírito, que vai morrendo no corpo, tenha assim um vislumbre de ressurreição."


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