27.04.2007

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"Entristecia-me, como é óbvio, a ausência, entre nós, de prazer a nível físico. Se tal tivesse sido possível, ambos teríamos certamente sido mais felizes. Mas isso era uma coisa que não estava nas nossas mãos, uma espécie de destino inadiável, como o movimento das marés ou a passagem das estações. Por mais que Sumire e eu resguardássemos os nossos sentimentos com cuidado e inteligência, a nossa terna relação de amizade não podia durar eternamente. Era como se aquilo que existia entre nós estivesse condenado a ir dar a um beco sem saída. E nós estávamos dolorosamente conscientes disso.

Eu amava Sumire mais do que qualquer outra pessoa e desejava-a mais do que a qualquer coisa neste mundo. Por mais que quisesse, não podia adiar os meus sentimentos, pois só eles ocupavam um lugar verdadeiramente importante na minha existência.

Sonhava com o dia em que se verificasse uma transformação súbita, definitiva. Por mais remotas que fossem as hipóteses de isso se tornar realidade, tinha todo o direito do mundo a sonhar. Mas, no fundo, sabia que tal nunca viria a acontecer."

Sputnik, meu amor, Haruki Murakami

Comentários

Maravilhosamente bem escolhido. Todas as passagens, todas as palavras, todas as imagens que se criam em nós (através delas) são sentidas...e, parece-me, com sentido. A consciência dolorosa, a impossibilidade (ou incapacidade) de adiar o que, para alguém, algures, se torna significativo ao ponto de serem só esses sentimento que "ocupam um lugar verdadeiramente importante na minha existência". A vontade pungente de sonhar, já que temos (afinal...) todo o direito do mundo a sonhar, como se fossemos obrigados a pensar que, por isso, ainda não se paga. E, porém... no levar das marés das vontades, das impossibilidades, dos sonhos e dos medos, fica-lhes (nos) a certeza de que tal (seja lá isso o que for) nunca viria a acontecer. Estará "ela", de novo, a esperar a transformação súbita e definitiva (como dá segurança essa palavra) mesmo sabendo que tal nunca viria a acontecer...? Onde a coloca a paradoxalidade? Algures, num purgatório... diria.

Maravilhosamente bem escolhido.

Escrito por: Ana | 16.05.2007

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