21.02.2006
Orfeu Rebelde
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis...Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morteNo corpo de um poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.
Miguel Torga, Orfeu Rebelde
13.02.2006
...
A meu lado, J. M., sete anos, a desenhar. Sem desviar a cabeça, erguer o olhar ou se deter no desenho:
- Se um dia vais morrer para que é que escreves essas coisas?

