28.12.2005

... ...

"Ao terminar a leitura, abaixou o rosto e disse: feddhetetlen, ou seja, irrepreensível. Disse a palavra com um tremor na voz, e percebi que seus olhos marejavam. Percebi que Kriska tornara a me querer bem. E provavelmente imaginava que eu lhe viraria as costas, tão logo desvendasse o idioma húngaro por completo. Então cobri sua mão com a minha e lhe disse: serei para sempre teu discípulo humilde e grato. Ainda com uma lágrima a lhe descer na face, ela sorriu e disse: fala mais, por Deus. E eu: as melhores palavras que sei emanaram de ti, devem a ti seu vigor e sua beleza. E ela: só mais uma vez, suplico-te. E eu: será somente teu o meu verbo, dedicar-te-ei meus dias e minhas noites."

                                                                                                                                                                  Chico Buarque, in Budapeste

27.12.2005

... Da ignorância...

“Entre 1998 e 2002, a República Democrática do Congo foi cenário de uma guerra civil em que intervieram também sete países da zona e que fez três milhões de mortos, tanto em consequência dos combates como da fome e das doenças causadas pelo conflito.”

                                                                                                                                                                   Jornal de Notícias, 27/12/2005

26.12.2005

... ...

"Trocaram moradas e começaram a namorar. Foi então que a minha mãe sentiu algo que nunca sentira antes: uma efervescência, uma vibração e uma certa tontura. Não só com o Pierre, mas em qualquer lado, a qualquer altura.

- Bem, pensei que fosse amor.

Mas isso surpreendia-a, porque o Pierre não era muito inteligente e não falava muito, a não ser para dizer como ela era bela. Talvez ele fosse atraente? Mas não, depois de consultar algumas revistas percebeu que ele também não era. Mas o sentimento não passava. Depois, numa noite tranquila, após um juntar tranquilo, o Pierre tomou-a nos braços e implorou-lhe que passasse a noite com ele. Ela começou a sentir a tal efervescência e, enquanto ele a segurava nos seus braços, ela teve a certeza de que nunca amaria outro e, sim, ia passar a noite com ele e, depois disso, iam-se casar.

- Deus me perdoe, mas foi isso mesmo que fiz.

A minha mãe parou, tomada pela emoção. Implorei-lhe que acabasse a história, oferecendo-lhe uma Royal Scot.

- Mas ainda não te contei o pior.

Especulei sobre o pior, enquanto ela comia o seu biscoito. Talvez eu não fosse uma filha de Deus, afinal, mas de um francês.

Alguns dias depois, a minha mãe tinha ido ao médico, num acesso de ansiedade e culpa. Deitou-se na marquesa enquanto o médico lhe palpou o estômago e perguntou se ela se costumava sentir tonta ou se sentia alguma efervescência na barriga. Timidamente, a minha mãe explicou que estava apaixonada e que se sentia muitas vezes estranha, mas que não era por isso que tinha vindo ao médico.

- Pode muito bem estar apaixonada - disse o médico -, mas também tem uma úlcera no estômago.

Entregara-se de corpo e alma por causa de uma doença. Tomou os remédios, fez dieta e recusou os pedidos ansiosos do Pierre para a visitar. Nem é preciso dizer que, quando se encontraram, por acaso, uma vez mais, ela não sentiu nada, nada de nada, e pouco tempo depois fugiu do país para evitar vê-lo.

                                                                                                                                                                  Jeanette Winterson, in As laranjas não são o único fruto 

 

23.12.2005

... ...

"Se os átomos, por efeito do acaso, produziram tantas coisas de formas diversas, nunca ocorreu que construíssem uma casa ou fizessem um sapato? E, ainda, por que não admitir que as letras gregas, espalhadas ao acaso, em número infinito, chegassem a formar o texto da Ilíada?"

 

Montaigne, Ensaios, Lv. II, XII

21.12.2005

... ....

"Antes que as luzes da sala tivessem sido baixadas, quando a orquestra esperava a entrada do maestro, ele reparou naquela mulher. Não foi o único dos músicos a dar pela sua presença." (...) "Porque era bonita, porventura não a mais bonita entre a assistência feminina, mas bonita de um modo indefinível, particular, não explicável por palavras, como um verso cujo sentido último, se é que tal coisa existe num verso, continuamente escapa ao tradutor."

 

J. Saramago, in As intermitências da morte 

20.12.2005

... ...

"A morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem."

                                                                                                                                                                         J. Saramago, in As intermitências da Morte

17.12.2005

Quadras

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela

Mas não lhe sabe falar.

                                                                                                                                                                  Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há-de dizer.

Fala: parece que mente...

Cala: parece esquecer...

                                                                                                                                                                     Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se o olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estão a amar!

                                                                                                                                                                    Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

                                                                                                                                                              Fernando Pessoa

16.12.2005

... a mexicana a duas mãos...

Nesta mesa de um cinzento de ombros acomodados

Anos de conversas esparsas milhentas como o mundo

Tertúlias de vozes roucas de sorrir, agudas de sofrer

Conversas transversais ao tempo no mesmo espaço

E nós...

Unos em partilhas enlaçadas

Tu enlaças-me em voo na escrita com o teu

tom fascinante,

expressão de quem sempre pensa

e nunca adormece...

... E encontra em ti a doçura quente

das palavras sentimentos que te fluem em cascata

dos olhares que palavras nenhumas alcançam

Do aroma tão teu que não se desprende dos meus sentidos

dos sentires que nem palavras

nem olhares nem aromas

deixam revelar por inteiro

12.12.2005

...Ziguezaguiando no estudo de psicometria...

Qual é o índice de medida psicométrico para o que cada pessoa é?

10.12.2005

...Fabianando...

AS TIME GOES BY

[This day and age we're living in
Gives cause for apprehension
With speed and new invention
And things like fourth dimension.

 

Yet we get a trifle weary
With Mr. Einstein's theory.
So we must get down to earth at times
Relax relieve the tension

 

And no matter what the progress
Or what may yet be proved
The simple facts of life are such
They cannot be removed.]

 

You must remember this
A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh.
The fundamental things apply
As time goes by.

 

And when two lovers woo
They still say, "I love you."
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by.

 

Moonlight and love songs
Never out of date.
Hearts full of passion
Jealousy and hate.
Woman needs man
And man must have his mate
That no one can deny.

 

It's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die.
The world will always welcome lovers
As time goes by.

 

Oh yes, the world will always welcome lovers
As time goes by.

 

Herman Hupfeld

 

 

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