27.02.2005
Despedida
"Na hora da morte abram-se os olhos para a vida."
Do silêncio do teu rosto assaltam-me memórias imensas. O que me sou, me fui, me serei devo-o a todos os que como tu me pegaram no colo e que, por detrás da cortina da distância do dia-a-dia, me acompanharam desde que a lembrança nasceu em mim.
E é a infância que me revisita, as sopas de Sábado à noite, as barbas brancas intemporais, as histórias dos tempos sem fim, não me eras doutor nem juíz eras o "Corno" e eu a herança da "Burra Velha"; trazias-me constantemente a memória dos genes que refulgem em mim mas que não conheci; contigo foram-se as névoas lembradas do sangue nómada dos dominós, do cigarro no canto da boca que se apagava no acender do seguinte, dos lábios tortos do som arranhado da exclamação; eras-me o livro personificado das misérias que não passei; o fulgor dos olhos vibrantes de vida; os ossos apertados nas tuas mãos; o valor da família que foi a obra maior que quiseste deixar; a cabeça calva nas manhãs de domingo, a manga levemente arregaçada que do canto da igreja era o sinal de que a missa ia longa.
Bastião desses de todo o sempre, dos que atravessaram décadas no nosso inconsciente. Desaparecendo fica tudo nos ombros dos que ficam: uns curvados com a sombra que se aproxima (e de que forma subtil ela se mostrou), outros órfãos da eternidade que a vossa presença dava à vida.
22.02.2005
Na estrada de Santiago
“Carreiro
Deserto
Tão longe
E tão perto
Anseio
Secreto
Encontro
Mais certo
Caminha na estrada
De Santiago
A estrada marcada
por tanto passo
Ao longo
Dos séculos
Passaram
Milhões
A vista
cansada
De tantas
paixões
Acorrem à estrada
De Santiago
A estrada marcada
Por tanto passo
E como
se sente
tão acompanhado
Se não vê
mais gente
Nem tem ninguém
ao lado
Caminha na estrada
de Santiago
a estrada marcada
por tanto passo”
Pedro Ayres Magalhães

